(Nota: epiclese = a invocação do Espírito Santo; anamnese= recordação da morte, ressurreição…; antífona = canto; palavras da consagração: «Este é o meu Corpo… meu Sangue…»; consagração = a transformação dos dons;
adoração = profunda adoração e união com Jesus crucificado)
A epiclese na Liturgia oriental e ocidental
Na Liturgia oriental, as palavras da instituição pronunciadas por Cristo e a epiclese, embora separadas temporalmente entre si, formam um todo espiritual. Sua culminação é a consagração (transubstanciação).
Na Liturgia ocidental, a epiclese ―a invocação do Espírito Santo― seja implícita ou verbal, precede as palavras da instituição de Cristo. Quando o sacerdote pronuncia as palavras de Cristo, o Espírito Santo faz presente sobre o altar o sacrifício de Cristo no Calvário de uma maneira misteriosa. Aqui também há duas condições requeridas para que a consagração seja válida: as palavras da instituição e a epiclese, a ação do Espírito Santo, sem o qual o sacramento não seria válido.
A) Liturgia oriental: O sacerdote recita ou canta as palavras da instituição. Depois das palavras da instituição, vem a anamnese que o sacerdote reza em silêncio ou em voz alta, recordando o que sucedeu por nós: “A cruz, a morte, o sepulcro, a ressurreição…”.
Depois da anamnese, o coro canta a antífona “Nós te louvamos…” até que se realize a consagração na epiclese. Em alguns mosteiros a prática comum é que o sacerdote se ajoelhe diante do altar durante ou depois da anamnese, enquanto se canta a antífona, e ore brevemente para que o Espírito Santo desça sobre ele e sobre o povo: “Envia Teu Santo Espírito sobre nós”. Depois se levanta, se aproxima do altar e reza a epiclese sobre os dons: “E transforma (por Teu Espírito Santo, oh Deus) este pão no Corpo precioso de Teu Cristo”. E depois diz em voz baixa: “E transforma (por Teu Espírito Santo) o que há neste cálice no Sangue precioso de Teu Cristo”. A epiclese conclui com as palavras: “(Oh Deus, Tu) transformaste (os dons) por Teu Espírito Santo. Amém, amém, amém”.
Enquanto isso ocorre, o coro canta a antífona. Uma prática comum em alguns mosteiros é que o sacerdote se ajoelhe e se incline profundamente até o solo. Depois se ajoelha em adoração por uns instantes, dando assim, também, aos fiéis, a oportunidade de dar-se conta da morte de Cristo que se faz presente no altar.
B) Liturgia ocidental: Depois do Sanctus, o sacerdote recita o cânon (anáfora). O primeiro cânon só assume implicitamente a epiclese: “… de modo que (esta oferta) se converta para nós (pelo poder do Espírito Santo) no Corpo e †no Sangue de Teu Filho amado, Jesus Cristo, nosso Senhor”.
No segundo, terceiro e quarto cânon, a epiclese também se expressa com palavras.
Cânon II: “Por isso te pedimos que santifique estes dons com a efusão de Teu Espírito, de maneira que se convertam para nós no Corpo e †o Sangue de Jesus Cristo, nosso Senhor”.
Cânon III: “Por isso, Pai, nós te suplicamos que santifiques pelo mesmo Espírito estes dons, de maneira que se convertam no Corpo e †no Sangue de Jesus Cristo”.
Cânon IV: “Por isso, Pai, te rogamos que este mesmo Espírito santifique estas ofertas, para que se convertam no Corpo e† no Sangue de Jesus Cristo, nosso Senhor”.
“Não é o homem que faz que as coisas oferecidas se convertam em Corpo e Sangue de Jesus Cristo, senão o Espírito Santo”. (São João Crisóstomo)
Há uma pausa de silêncio entre a epiclese e as palavras de Cristo. Se há um coro, canta a antífona ao Espírito Santo. O sacerdote e os fiéis se dão conta da instituição da Liturgia por Cristo no cenáculo. Ao mesmo tempo, se doa conta de que foi no próprio cenáculo onde os apóstolos receberam o Espírito Santo depois da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo. Pouco depois celebraram a Liturgia no mesmo lugar por primeira vez. Agora a morte redentora de Cristo se fará presente no altar.
Ao momento de silêncio acompanhado do canto da antífona segue-se a parte essencial da Liturgia: a consagração (transubstanciação).
As palavras da instituição
“Tomai e comei, isto é o meu Corpo…”
“Tomai e bebei, isto é o cálice do meu Sangue…”
A consagração está condicionada pelas palavras da instituição de Cristo e a obra do Espírito Santo (epiclese). No momento em que o sacerdote pronuncia as palavras da instituição, o Espírito Santo as transforma em palavras da consagração. Na consagração, o poder do Espírito Santo une as palavras de Cristo na última ceia com a morte de Cristo na cruz no Calvário e atualiza o mistério da transformação dos dons no Corpo e no Sangue de Cristo. Ao mesmo tempo, faz presente no altar o sacrifício de Cristo na cruz. A condição da consagração é a participação de um sacerdote que, através da ordem sagrada, recebeu a unção do Espírito Santo para este serviço litúrgico.
Para que sacerdotes e fiéis possam experimentar espiritualmente o mistério eucarístico, é necessário crias as condições. Portanto, é necessário fazer duas pausas para uma concentração mais profunda e uma experiência pessoal.
A primeira pausa ―o primeiro momento de silêncio― é antes da consagração: foi mencionada anteriormente; é uma preparação para viver o mistério eucarístico. Durante a primeira pausa, tanto o sacerdote como os fiéis voltam a orar e receber com fé o mesmo Espírito que os apóstolos no dia de Pentecostes. Para poder viver o mistério da consagração, lhes predispõe a petição: “Espírito Santo, faz presente o sacrifício da cruz de Cristo através do sacerdote”.
A segunda pausa ―o segundo momento de silêncio ― (a adoração) vem depois da consagração:
O coro canta a antífona na qual se repete o nome de Jesus. Neste nome de Deus está nossa salvação (Rm, 10,13). Durante a adoração, o sacerdote e os fiéis, cada um pessoalmente percebe uma realidade que está além do tempo e do espaço: agora estou junto à cruz de Cristo no momento de Sua agonia e morte. Olho o rosto de Jesus; dou-me conta de que agora Ele me vê, fala-me e deixa-me Sua última vontade e testamento nas palavras: “Eis aqui tua mãe”. Faço o mesmo que o apóstolo João e, como ele, recebo espiritualmente a Mãe de Jesus no mais íntimo do meu ser: “eis ta idia” (“in sua”; Jo 19, 27). Ao receber este testamento de Jesus, pronuncio lentamente o nome divino de Jesus em aramaico: Yehoshua. Digo-o em espírito sílaba por sílaba, e repito três vezes a última vogal “a” exalando-a lentamente para concentrar-me melhor e receber conscientemente a Mãe de Jesus pela fé.
A próxima coisa que faço aqui junto da cruz é o que mais necessitarei na hora da morte, isto é, um ato de contrição perfeita orando: “Jesus, Jesus, Jesus, tem piedade de mim, pecador”. Repito cinco vezes, fixando os olhos espirituais nas cinco chagas de Cristo.
Finalmente, dou-me conta da conexão de meu batismo com a morte de Cristo, expressa nas Escrituras: “Fostes sepultados (submersos) pelo batismo na morte de Cristo” (Rm 6). Tento submergir neste mistério pela fé invocando novamente o nome de Cristo “Yehoshua”.
Na liturgia ocidental, ao momento de silêncio ―à adoração― segue-se a anamnese, quando o sacerdote se levanta e diz: “Este é o mistério da fé”. Os fiéis respondem: “Anunciamos Tua morte, proclamamos Tua ressurreição. Vem, Senhor Jesus!”. O sacerdote continua a anamnese dizendo: “Assim, pois, Pai, ao celebrar agora o memorial da morte e ressurreição de Teu Filho…”.
Quanto à ressurreição de Cristo, faz-se presente na Liturgia no momento em que uma parte da hóstia consagrada deixa-se cair no cálice e se une ao Sangue de Cristo. Este é o caso tanto na Liturgia oriental como na ocidental. É uma prática comum em alguns mosteiros que em lugar das palavras: “Dai-vos fraternalmente a paz”, diz o sacerdote em voz alta: “Cristo ressuscitou!” e o povo responde: “Verdadeiramente ressuscitou!”. Depois, o coro canta uma breve antífona que expressa a realidade da ressurreição de Cristo. Isto enfatiza e expressa a verdade da anamnese “proclamamos Tua ressurreição (na liturgia)”.
Esta carta apresenta um diagrama que expressa a comparação dos componentes da parte mais importante da Liturgia, tanto no rito oriental, como no ocidental. Estes componentes são essenciais em ambas tradições espirituais.
Deve-se reconhecer o principal traço negativo da reforma litúrgica, a saber, o fato de que foi explorada para produzir uma mudança diametral na hierarquia das relações. A relação prioritária com Deus foi substituída pela relação com o homem. A vertical foi eliminada pela horizontal! Depois da separação bíblica do altar e do tabernáculo, colocou-se o sacerdote deliberadamente de costas para o tabernáculo! Portanto, é necessário voltar a este assunto e fazer um gesto de arrependimento, isto é, voltar não só o altar, mas também o coração do sacerdote e do povo para Deus! “No arrependimento está a salvação, mas negar-se a arrepender-se é a morte!” (São Basílio)
Também é preciso substituir a palavra “trabalho”, enfatizada no ofertório duas vezes pelas seguintes palavras: “… este pão (vinho) que te apresentamos. Converte-lo-ás no Corpo de Cristo (no Sangue de Cristo) através de Teu Espírito”.
Tem havido objeções no sentido de que as palavras de Cristo da instituição se traduzam incorretamente. A solução é dizê-las no idioma original (hebraico/aramaico)
Apêndice: Breve resumo de como o sacerdote e o povo devem viver os dois momentos de silêncio.
O primeiro momento de silêncio (de 2 a 5 minutos): O coro canta a antífona.
(Com a mente me transporto ao cenáculo em Jerusalém, onde Jesus instituiu o sacrifício incruento e onde o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos).
Veni Sancte Spiritus… Recebo novamente o mesmo Espírito que os apóstolos. (Ye-ho-shu-aa-aa-aa…²)
Espírito Santo, faz presente o sacrifício da cruz de Cristo através do sacerdote¹. (Ye-ho-shu-aa-aa-aa…²)
Nota:
¹ O sacerdote diz em espírito: «através de mim».
² Yehoshua = o nome de Jesus em aramaico
O segundo momento de silêncio (adoração) (de 3 a 5 minutos): O coro canta a antífona.
(Testamento da cruz: estou em espírito no Calvário).
Jesus, Tu me vês e agora me dizes: «Eis aí tua Mãe». «Recebo».
(Ye-ho-shu-aa-aa-aa).
(Contrição perfeita: olho Tuas feridas e repito:)
«Jesus, Jesus, Jesus, tem piedade de mim, pecador». (5 vezes)
(Morte: «Fomos submersos pelo batismo na morte de Cristo»).
Agora estou unido a Tu morte. (Ye-ho-shu-aa-aa-aa…)
Os dois momentos de silêncio são de suma importância para apreciar o mistério eucarístico. Ajudam tanto ao sacerdote como aos fiéis a vivê-lo profunda e pessoalmente.
A última pregunta: “Que necessitam os que comem o pao e bebem o cálice do Senhor? Que sempre recordem Aquele que morreu e ressuscitou por eles. E que mais têm em comum os que sempre o recordam? Não vivem mais para si mesmos, mas para Ele!” (São Basílio).
+Elias
Patriarca do Patriarcado católico bizantino
13 de Outubro de 2021
Baixar: O PCB: Transubstanciação na Liturgia oriental e ocidental (Como viver o mistério da fé) (13-11-2021)

